Todos estamos conectados.

Acreditar é tornar verdade. Acreditar movimenta o campo energético que circula ao redor de nós e faz atrair para nossa realidade situações e pessoas que se conectam conosco de uma forma singular e, às vezes, até assustadora, tamanha interação e similaridade com que se apresentam.

Hoje foi dia de reunião no Estaleiro Liberdade. Mais um dia de conexão, de resiliência de grupo, de reforçar elos que já não são menos que viscerais. Mas chegou um momento em que tive que me ausentar para ir à aula. Nestas situações, costumo sempre sair da casa, colocar os fones de ouvido e refletir sobre o nosso encontro. Mas hoje o dia foi diferente: senti a necessidade de escutar o turbulento barulho que a cidade exala em seu início de pico de movimento (eram 17h).

Esperando a van que sempre me busca, lembrei de ter um livro pocket na bolsa chamado “Discos”. Ganhei ele de uma amiga, a Gio, que lembrou carinhosamente de mim quando o viu em uma livraria e disse ‘acho que tu vai gostar!’. E ela estava certa. O livro é dividido em 7 partes, cada uma referente a um artista, músico ou compositor que se dedicou a escolher os 10 álbuns de música que lhe são especiais e que levaria para uma ilha deserta. Como os textos são curtos resolvi, neste intervalo de espera, abri-lo em qualquer página e ver o que ele havia de me oferecer naquele momento.

Eis que compartilho o texto lido com vocês:

De Eduardo Gianneti.
Disco 7: Transa – Caetano Veloso

“Se me fosse concedido, por um editor amigo da música, um pouquinho mais de espaço na bagagem que levo para a ilha, eu não me resignaria a um único disco apenas, mas levaria a caixa com todo o Caetano. Ao contrário de João Gilberto, que lapidou exaustivamente o diamante de sua monumental descoberta, o gênio de Caetano traz a marca da inquietude e da constante renovação – nada de repousar em demasia no mesmo sítio estético. Daí que a ideia de pegar um só disco seu seja, para mim, tarefa ingrata, quase uma pequena tortura. Como deixar para trás Jóia, Qualquer Coisa, Bicho, Muito, Velô, Estrangeiro, Circuladô, Livro, Noites do Norte – discos que nunca deixaram de privar, e de fazêl-lo de um modo estranhamente peculiar, da minha intimidade subjetiva? Escolher, entretanto, é preciso. Mãos à obra.

Transa não tem o apuro técnico, o domínio do espaço acústico e a atenção ao detalhe que passam a caracterizar a produção de Caetano após Araçá Azul. Mas o que lhe falta, talvez, em acabamento formal é mais do que compensado pela vitalidade e frescor de suas sete faixas. É um disco de estúdio, mas preserva a espontaneidade e a atmosfera vibrante de uma gravação ao vivo. O ponto decisivo, porém, não é esse. O que me faz ficar com Transa – e não com nenhum outro disco de Caetano, por mais difícil que tenha sido a escolha – é a natureza da experiência de vida que encontro nele. Um poema da tradição hebraica (anônimo) sintetiza em três versos o que eu não conseguiria exprimir em mil: ‘Quando estamos nos degraus mais baixos da escada do pesar, nós choramos./ Quando chegamos à metade dela, nós emudecemos./ Mas, quando alcançamos o topo da escada do pesar, nós convertemos a tristeza em canto’. (O fenômeno, como vim a saber mais recentemente, recebeu da psicologia jungiana o nome de enantiodromia: a súbita e inesperada passagem de um extremo a outro no campo da vida psíquica)

Não seria exato dizer que aprendi isso ouvindo Transa. O que aconteceu de fato foi que eu estava pessoalmente vivendo isso – sem me dar bem conta, é certo, do que passava comigo – quando ocorreu meu encontro com o disco. Ao ouvir faixas como ‘It’s a Long Way’ e ‘Mora na Filosofia’, num momento especialmente sofrido dos meus 20 e poucos anos, posso dizer que experimentei uma das experiências estéticas definidoras da minha existência. A intensidade dramática que a arte de Caetano imprimia à canção de Monsueto, em particular, tocava o ponto mais íntimo e sensível da minha dor. Aquilo me libertava das trevas do desespero em que afundara. Foi ouvindo Transa, em suma, que pude chegar a reconhecer em mim mesmo oq ue escreveria, anos mais tarde, em Auto-engano: “Do ponto extremo da dor, como num parto, pode romper a alegria indescritível, a inundação do amor. ‘Eis que um segundo nascimento, não adivinhado, sem anúncio, resgata o sofrimento do primeiro, e o tempo se redoura.’ Da morte em vida renasce a vida, como a giesta, flor das cinzas do Vesúvio”.

Há quem converse com as estrelas, como Bilac; ou com rosas, como Roberto Carlos; ou ‘com seus botões’, como a Sofia de Quincas Borba. Quanto a mim, uma coisa é certa. A intralocução com a obra e – por que não dizer? – o ídolo Caetano Veloso é um solilóquio íntimo que há anos não cesso de praticar. ”

Somos inquietos como Caetano, temos vitalidade, frescor. Somos vibrantes. Experimentamos a vida!

Deixo aqui a minha certeza que se reforça a cada dia: estamos todos conectados. Sempre. E para sempre.