O pior ambiente de trabalho possível?

Um dia desses um amigo me perguntou o que eu achava de um artigo sobre a tal geração Y. Com o título A pior geração?, o artigo fala da péssima reputação que essa geração tem no ambiente de trabalho, usando como base uma pesquisa que diz que os jovens são muito narcisistas. O texto traz uma série de conclusões sobre a geração Y: ego super-inflado, expectativas nada realistas (e um consequente desapontamento crônico), rejeição quase que automática a toda e qualquer crítica etc. A salvação seria que a geração Y é idealista, sugere o artigo… para negar logo em seguida: outros estudos dizem que tudo o que importa para a geração Y em questão de trabalho é: salário alto e tempo livre.

O que que respondi para o meu amigo é que achei o artigo e as pesquisas fantásticas, mas as conclusões, ridículas. Toda a argumentação que vi ali é voltada para avaliar a geração Y em relação ao trabalho e ao ambiente profissional. Se essa geração se acha especial, se ela é narcisista, se ela é muito sonhadora e teimosa, e se ela se frustra tanto por sempre sonhar mais alto, ela de fato não se encaixa nesse ambiente de trabalho tradicional.

Mas isso é problema para quem? Ou, colocando de outra forma: vemos mais gente reclamando que não atingiu o que sonhou, ou reclamando que faz zilhões de horas extras e não tem tempo de fazer o que ama? Meu ponto é que se esse perfil geração Y é ruim para o ambiente profissional, o perfil profissional tradicional também é ruim para a geração Y. Então por que só se critica um e não outro?

Creio que o ponto não seja o sonhar e o se frustrar. Creio que o ponto seja ser medido e avaliado por um ambiente profissional que não permite que você realize o que você acha que é relevante para o mundo. E talvez por isso a geração Y queira tanto tempo livre e dinheiro: para fazer o que acha que vale a pena ser feito.

No texto que meu amigo me passou, os argumentos não são voltados para a relação entre a geração Y e o ambiente de trabalho. De uma forma muito parcial, os argumentos são voltados para verificar se a geração Y cumpre as expectativas do ambiente profissional. E, olhando por essa lentes, claro que os resultados só vão ser críticas à geração Y.

Para o jornalista  e para as pesquisas, tudo bem, já que o foco deles é justamente esse ambiente de trabalho que existe hoje. Mas o problema pode não estar na geração Y, mas sim em medir tudo, as pessoas, o mundo, pelo ambiente de trabalho, pela produtividade no trabalho, pela aspiração de carreira e por regrar a vida nisso tudo. O que incomoda  é medir a geração Y por um conjunto de valores, por uma rotina e por um plano de vida totalmente pensado pelos baby boomers (corporações, carreiras longas e estáveis etc.). O que incomoda é a falta de questionamento sobre essa herança toda.

Assim, o problema é achar que toda essa forma de viver é a única viável, ou a melhor possível. O problema é o medo de questionar, de mudar e, principalmente, de criar espaços diferentes para que a geração Y possa aproveitar melhor o mundo e dar do seu melhor para o mundo.

No meu último emprego formal, quando pedi demissão, um dos diretores da empresa me perguntou o que eles podiam fazer para  atrair mais gente com o meu perfil e para evitar que eles percam gente com o meu perfil. Um outro diretor respondeu, de forma direta, curta e reta: “nada”. E ele estava certo. Meu estilo de vida é o que (em grande parte) me faz ser um cara interessante para aquela empresa (em resumo: adoro viajar e cozinhar, já fiz um Ironman, sou formado em design, tenho mestrado em sociologia, sei programar… vários baldes chutados e muitas coisas vividas nos pós-chutes). Mas faz parte desse mesmo estilo de vida mudar de ares drasticamente e fugir (assim como o diabo foge da cruz) de ser um executivo, um diretor de uma multinacional. O segundo diretor, o que respondeu que nada poderia ser feito, entendeu isso. Ele entendeu a geração Y. O outro, pelo jeito, não.

ATUALIZAÇÃO 03/10/2013 16h05: O Barboza me chamou atenção para uma coisa que eu não sabia. Ele me passou essa matéria, segundo a qual a geração Y é narcisista, egocentrica justamente por que isso é típico entre pessoas entre os 20 e 30 anos. Ou seja, repetindo o estudo daqui 20 anos, a próxima geração pode ser muito parecida (ou, pegando a máquina do tempo e voltando, nossos pais hippies podiam ser igualzinhos).