Liberdade que assusta

Qual o maior medo ao navegar com o teu barco?

Será o medo dos icebergs e recifes de corais que se apresentam na forma de desafios e problemas que podem surgir durante a navegada?

Será o medo de que uma vela rasgada te impossibilita de utilizar os ventos?

Será o medo da imensidão do mar aberto e a incerteza de não saber para onde se está indo?

Alguém bem especial, que conheci hoje pela manhã, me fez essa pergunta.

Mesmo que simples, ela me fez parar e sentir algumas coisas.

Toda minha vida eu fui um barco numa estrada de ferro.

Meu caminho estava traçado. Não haviam corais nem obstáculos nos trilhos, não precisava de vento para as velas e sabia exatamente as estações por onde passaria.

Tudo que eu tinha a fazer era seguir nos trilhos, e isso não era difícil. Ao contrário: era confortável e seguro.

Nos últimos meses tenho tentado tirar o barco da estrada de ferro e colocá-lo a navegar, já que percebi que apesar de a estrada ter sido construída para mim ela nunca foi minha.

O meu maior medo ao navegar tem sido a liberdade que o controle sobre o próprio leme me trouxe.

Os anos na estrada de ferro, com o barco movido à motor, enferrujou meu leme e enrugou as minhas velas.

Começo a me dar conta de que não precisamos construir outro barco para sair da estrada e ir ao mar.

Já temos o barco pronto, desde o momento em que nascemos estamos prontos para desbravar altos-mares e enfrentar as piores tempestades.

O que precisamos para jogar este barco ao mar é de um lugar que nos dê segurança para descobrir tudo que é nosso no convés e nos permita jogar todo o resto fora.

Quando tivermos posto ele na água perceberemos que o vento sopra, e muito.

É soprado por todos aqueles com quem nos identificamos e conectamos nesta jornada.

Nos resta, então, perder o medo, abrir a vela e manejar o leme de acordo com aquilo que nos toca.